Carta de Clarissa
Porque hoje faz vinte anos, julguei necessário organizar meu mundo em palavras e entregá-las a ti. Toma que são tuas. Tudo teu. Guarda-as, já que esta não é uma carta q se envia. É uma carta que fica. Quem precisa partir sou eu. Vou continuar minha jornada sem pena, mas é preciso que seja longe daqui. Longe dessas paredes que reverberam mantras de desespero. Longe desses fragementos de vida que insisto em cultivar num ritual ininterrupto. Eu, que até pouco tempo acreditava que viver de passado era bom.
Acreditei que a felicidade fosse possível, o amor fosse possível. Que não existissem só desencontros e covardia, mas amizade, delicadeza e compaixão. Esperava que o curso da vida seguisse etapas imutáveis. Nascer, crescer, envelhecer, morrer. Mas regras muitas vezes se quebram e minha existência está emoldurada no rol das exceções.
Nós, mulheres, temos o dom de lidar com isso que chamamos de fatalidade e sobre as quais não temos qualquer controle. Aprendemos desde cedo a nos conformar com os acasos brutais que nos roubam saúde, segurança, ideais, amores. Mas a perda de um fiho é a perda das perdas.
Tentei reconfortar a mim mesma acreditando que perder me faria amar melhor. Mas quando busquei um encontro, defrontei-me com a solidão. Quando quis um abraço, fui segregada.
Você sempre foi testemunha de meu tentar. E tentei tanto. Não preciso lhe dizer sobre lutar para atravessar as tardes de domingo sem enlouquecer. Sobre reagir em vão para preencher os espaços que ficaram vazios. Sobre tentar me convencer de que, afinal, valeria a pena continuar. Esperei que o tempo me trouxesse um pouco de esquecimento. Mas minha memória ficou para sempre aprsionada em um temp de dor. E esse tempo não fez nada além de secar flores e envelhecer fotos. Nesses 20 anos, sua presença indiferente testemunhou os invernos que suportei os silêncios desta casa vazia. Você, que em sua mudez entoou as melodias que embalaram minhas despedidas. Suavizou a rudez das portas que se batiam. Tive-o como companhia quando ligava todas as luzes e a casa parecia ainda mais escura.
Não consegui superar este vazio. Se foram os relevos, as curvas, as cores. Vou embora também, levando comigo esse deserto plano e opaco. Não quero recordações. Não quero bens. Não quero vínculos. Não é preciso que se preocupe com a solidão porque outras pessoas virão até você. Espero que não se machuquem como eu me machuquei. E que suas perdas sejam ao menos suportáveis. Porque eu já não sinto medo, já não sinto dor, já não sinto nada.
Para sempre







